ENTREVISTA AO FISIOTERAPEUTA LUÍS NASCIMENTO

7 Mar

Se é verdade que as entrevistas por escrito a personalidades marcantes do futebol de praia têm incidido invariavelmente sobre pessoas de outros países, desta vez trazemos até aos nossos leitores as palavras de um português. E, se até agora os inquiridos tinham sido sempre atletas da modalidade, desta vez apresentamos a visão de um fisioterapeuta: Luís Nascimento, que tem participado nas mais recentes competições nacionais ao serviço da Associação Cultura e Deporto “O Sótão”.

Apresentamos em seguida a entrevista, na qual o Luís nos descreve a realidade das lesões no futebol de praia, a importância do trabalho específico de preparação física dos atletas e as suas peculiares vivências na modalidade. Aconselhamos vivamente a leitura da entrevista, que nos mostra uma dimensão fundamental do futebol de praia, que também merece a nossa atenção. Queremos desde já expressar a nossa gratidão ao Luís por nos honrar com a sua participação no blogue, enriquecendo este espaço com um tipo de abordagem que ainda estava a faltar!

BEACH SOCCER RESTELO: Sendo o futebol de praia um desporto relativamente recente e pouco conhecido por parte do público, como começaste a trabalhar enquanto fisioterapeuta na modalidade? E como surgiu a oportunidade de trabalhar com a equipa O Sótão da Nazaré/UDLeiria?

Luís Nascimento: Pode dizer-se que aconteceu por obra do acaso. Desde a minha formação enquanto fisioterapeuta que estou ligado ao desporto, tendo trabalhado com a Equipa Profissional de Futsal do S.L. Benfica durante duas épocas. Depois dessa fase surgiu outro projecto e comecei a trabalhar na PHYSIOCLEM (Clinica de Fisioterapia), onde desde sempre estive muito ligado à recuperação de atletas de várias modalidades. Em 2009, o Bruno Novo (actual jogador da Selecção Nacional) realizou uma grave lesão, tendo recorrido aos meus serviços para efectuar a sua reabilitação. Após a total recuperação iria iniciar o Campeonato Nacional de Futebol de Praia, tendo surgido então o convite para dar o apoio à sua equipa “O Sótão da Nazaré/UD Leiria”.

BEACH SOCCER RESTELO: Quais as lesões mais frequentes no futebol de praia? Existem grandes diferenças em relação às que costumam afectar os jogadores de futebol de onze ou de futsal?

Luís Nascimento: Não existem estudos científicos acerca da incidência de lesões no futebol de praia, mas a minha experiência mostra-me que as mais frequentes são as lesões musculares, contusões, entorse da tíbio-társica e luxações das articulações periféricas (dedos de mão e pé). Quando comparadas com as lesões do futebol de onze e com o futsal, verificamos que estas também são as lesões mais frequentes. No entanto, a minha experiência nesta modalidade mostra-me que apesar de as lesões frequentes serem as mesmas entre estes desportos, a incidência é muito maior no futebol de praia. Podem existir várias explicações para este facto, a exigência do ponto de vista físico, a existência de muito contacto fisco, o piso muito irregular, e as temperaturas muito altas no decorrer dos jogos.

Outro problema que se coloca é que a maioria dos atletas que praticam esta modalidade só o realiza durante uma fase do ano, e normalmente durante a paragem da época de futebol. O que fará com que a maioria dos atletas tenham uma sobrecarga de treinos e jogos. Para além disso estes atletas têm pouco tempo de trabalho específico desta modalidade, o que faz com que as suas estruturas estejam muito menos adaptadas e desta forma mais sujeita a lesões.

BEACH SOCCER RESTELO: No futebol de praia, a duração de um jogo é mais reduzida e os jogadores as substituições são ilimitadas. No entanto, jogar na areia pode ser muito cansativo e as partidas são realizadas, quase sempre, em dias consecutivos. Quais as exigências deste regime ao nível da recuperação física dos atletas?

Luís Nascimento: Tal como em qualquer modalidade desportiva o trabalho de recuperação quer activa quer passiva é importante para a melhor performance desportiva do atleta. A particularidade do futebol de praia exige ainda mais um trabalho especifico desta vertente. Assim sendo deve ter-se em consideração quer os períodos de repouso, a alimentação, hidratação, bem como a recuperação activa de cada atleta.

BEACH SOCCER RESTELO: Após os jogos, os atletas recebem algum tipo de tratamento visando a sua recuperação física para os dias seguintes? Como se caracteriza o trabalho que desenvolves diariamente com os atletas?

Luís Nascimento: O meu trabalho junto da equipa começa muito antes dos jogos com a elaboração das ementas para o período de competição, bem como a definição dos períodos de repouso. Durante a fase de competição para além do tratamento e prevenção das lesões quer antes quer após os jogos,ocorre também um trabalho de recuperação dos atletas que vai desde o trabalho de alongamento muscular, ao relaxamento muscular.

BEACH SOCCER RESTELO: O capitão da selecção espanhola de futebol de praia, Ramiro Amarelle, esteve pouco activo durante a temporada de 2010 devido a problemas físicos. Afectado por sucessivas lesões, nunca chegou a atingir o seu melhor nível, alternando entre períodos de paragem e de actividade. Enquanto fisioterapeuta da modalidade, como analisas esta situação?

Luís Nascimento: É muito difícil falar dessa situação específica, sem ter conhecimento concreto do caso. No entanto o que posso dizer é que a exigência do futebol de praia, pode muitas vezes condicionar o regresso à actividade dos atletas pós lesão. Desta forma, é muito importante um acompanhamento de um Fisioterapeuta que para além das competências profissionais, tenha o conhecimento da especificidade do Futebol de Praia.

BEACH SOCCER RESTELO: Imagino que, enquanto fisioterapeuta da modalidade, tenhas um envolvimento profundo com a modalidade. Como foi no ano de estreia no Futebol de Praia? Como sentes um jogo da tua equipa? Qual a relação que estabeleces com os jogadores? Qual a tua opinião acerca do futuro do futebol de praia?

Luís Nascimento: Apesar de já ter ganho títulos nacionais aquando da minha passagem pelo Futsal do S.L. Benfica, foi muito gratificante logo no 1º ano que participo no Campeonato Nacional de Futebol de Praia ser Campeão Nacional.

Como podes perceber o meu papel como Fisioterapeuta para além de amante da modalidade, faz com que tenha outro tipo de atenções durante o decorrer dos jogos. A visão enquanto adepto, passa para segundo plano e muitas vezes estou mais preocupado com possíveis lesões e observação da performance desportiva de cada atleta.

Para além da ligação profissional que se estabelece com cada jogador, durante estes curtos períodos de competição criam-se grandes laços de amizade, sofre-se com as lesões de cada um deles, mas também ficamos satisfeitos com os feitos individuais de cada um. Por exemplo, foi muito gratificante após uma grave lesão que impediu o Bruno de praticar futebol durante cerca de 6 meses, recuperá-lo levá-lo ao Campeonato Nacional e depois veio a ser convocado para a Selecção Nacional.

Na minha opinião o futebol de praia tem vindo a evoluir bastante nos últimos tempos, mas ainda tem muito potencial para crescer. O futebol de praia é um desporto espectáculo, que privilegia os golos e a qualidade técnica dos atletas.
Antes de acabar esta entrevista, gostava de dar um destaque ao trabalho excelente que “O Sótão da Nazaré/UD Leiria” tem vindo a realizar no panorama do Futebol de Praia Português. Não será por obra do acaso que, hoje em dia, três atletas formados no clube fazem parte da Selecção Nacional.

Um Grande abraço a todos os amantes do Futebol de Praia!

Luís Nascimento PHYSIOCLEM – Fisioterapia, Osteopatia e Bem-Estar.

www.physioclem.pt

www.physioclem.blogspot.com

BREVE RESUMO CURRICULUM

  • Licenciado pela Escola Superior de Saúde de Alcoitão.
  • Formado em Osteopatia pela Escuela de Madrid.
  • Formado em Reeducação Postural Global.
  • Ex. Fisioterapeuta da Equipa Profissional de Futsal do Sport Lisboa e Benfica.
  • Fisioterapeuta da Equipa de Futebol de Praia “O Sótão da Nazaré/UD Leiria”
  • Fisioterapeuta da Formação da União Desportiva de Leiria.

Uma resposta to “ENTREVISTA AO FISIOTERAPEUTA LUÍS NASCIMENTO”

  1. Pedro Pereira 8 de Março de 2011 às 23:40 #

    Muitos parabéns ao grupo por esta entrevista.
    Em primeiro lugar, o facto de entrevistarem um fisioterapeuta com um currículo como estes demonstra, mais uma vez, a projecção que o blog alcançou entre os amantes do Futebol de Praia.
    Em segundo lugar, foi uma excelente ideia abordarem o lado mais negro deste desporto, ou seja, as lesões. Em qualquer exercício estamos sujeitos a lesões; por vezes, quando abordamos uma modalidade, esquecemo-nos deste assunto. O grupo fez muito bem em contactar um especialista no seu tratamento e este post é, creio, mais um grande e consistente passo em frente no projecto.

    Cumprimentos.

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